terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um diferente olhar sobre a beleza.


Olá, pessoal. Como vão?
Faz tempo que não faço publicações no blog. E dessa vez, vou publicar sobre algo que conheço bem, sobre a vaidade entre as mulheres cegas. Muita gente se pergunta como somos vaidosas, como nos arrumamos sendo cegas... E vai aqui minha explicação, através de uma menina que ficou cega e que, antigamente, se fazia essa pergunta.
Faço minhas todas as palavras dela, sem ressalva alguma.O texto é retirado da rede saci, do dia 13 de outubro de 2014.

 VAIDADE ALÉM DO ESPELHO
Rede Saci
13/10/2014
por Daniela Kovács, palestrante, especialista em Direito do Trabalho pela PUC/SP, chefe da acessibilidade do TRT/SP
Daniela Kovács
A possibilidade de cegar já me fez perder a vaidade, pensava que se deixaria de ver era porque o externo não tinha a menor importância.
Imagine não se ver. Será que o externo não perderia a importância para você?
Eu já pensei assim. Quem sabe para minimizar a dor, entender a cegueira. Estava a um passo da depressão, quando deixamos de nos gostar, de nos cuidar.
Tive medo do desconhecido, da cegueira, do escuro. Não entendia como eu poderia me sem tir bonita, sem me ver. Hoje sei que a vaidade é essencial e vai além do espelho. É imprescindível à autoestima.
Posso escolher minhas roupas, se não puder vê-las, sentirei o tecido, o corte, perguntarei a cor. Vaidosa sim, e feliz. Aprendi a me cuidar de outra forma.
Descobri recentemente a possibilidade de me auto-maquiar, mesmo sem enxergar, me fez tão bem. Passei a me sentir mais bonita e confiante.
Aprendi que a beleza é um estado de espírito e vem de dentro para fora. Quando me sinto bonita, sou bonita, e será assim que as outras pessoas irão me ver.
Eu pensei um dia que o fato de não enxergar e não conseguir conferir e corrigir minha própria maquiagem era uma barreira intransponível. Descobri que o primeiro passo para conseguir algo, seja o que for, é tentar e acreditar. E se eu consegui todas conseguem.
Já dei até dicas de maquiagem na internet, ensinando, passo a passo, como fazer. E um dos meus projetos é um curso de maquiagem para meninas com deficiência visual.
Despertei para a beleza, mesmo sem me ver. Na verdade a perda da visão contribuiu para que eu me tornasse mais vaidosa, prestando atenção na maquiagem, num acessório, sapatos bonitos (com salto grosso de preferência, pois a perda da visão influencia no equilíbrio), bolsas, chapéus, lenços, cores (hoje que não vejo gosto mais de cor-de-rosa que antes). E, quem diria, conheci o mundo da moda, depois que perdi a visão e assim cheguei às passarelas, ou melhor chegamos, o Basher, meu cão guia, e eu. Desfilar, para mim, significou muito, foi como dizer a quem está passando por um processo de perda não desista, acredite em você.
E para não faltar com a verdade, confesso aqui que quando criança fiz um curso de modelo e manequim, com direito a ensaio na passarela e tudo. Só que meu primeiro contato com o mundo fashion não foi lá muito bom, derrubei minha amiguinha de cima da passarela enquanto ensaiávamos, acho que não a vi.
Tenho baixa visão desde criança, ou seja: enxergo pouco desde que nasci. Mas nunca havia aceitado que não enxergava, até o dia em que piorei bastante, de uma hora para outra.
Antes tropeçava e disfarçava, fingia que enxergava a lousa na escola ou algo que estivesse longe. Criei alguns mecanismos de disfarce, como um sorriso ou desviar o olhar e o mais engraçado é que nem eu mesma percebia tudo isso.
Numa noite estava trabalhando, eram quase onze e meia, fui dormir, exausta, continuaria no dia seguinte e não pude, quando acordei não via.
Hoje brinco dizendo que deve ter sido castigo porque ninguém tem de levar serviço para casa no final de semana e trabalhar a essa hora da noite numa sexta-feira, ainda mais analisando processo judicial. E essa brincadeira mostra bem que o tempo modifica tudo. Embora tenha sido muito difícil passar por esse processo de perda severa da visão hoje agradeço a Deus que ele tenha acontecido, porque como minhas limitações passaram a ser maiores tive de aprender a lidar com coisas que eu conseguia esconder até então.
Eu nunca tinha conviviido com pessoas com deficiência, jamais havia dito a alguém que eu não enxergava; na verdade eu nunca havia me aceitado. Descobri que quando não nos aceitamos vivemos num processo de constante agressão a nós mesmos.
A deficiência visual me ensinou muitas coisas, a desenvolver a humildade necessária para pedir ajuda constantemente e, principalmente, a olhar para o lado e perceber que haviam dores e dificuldades maiores que a minha, sempre há. E assim descobri razão para a minha vida e passei a lutar pela inclusão social de pessoas com todo tipo de deficiência, essa foi a tese da minha especialização A INCLUSÃO NO TRABALHO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA e é com isso que trabalho hoje.
Não é a toa que no mundo jurídico o trabalho é chamado de direito fundamental. É através dele que o ser humano resgata a sua cidadania. Mas a inclusão social da pessoa com deficiência vai muito além, passando, inclusive, pelo mundo da moda e da beleza.
Um novo olhar para o belo me ensinou que a vaidade não é uma coisa ruim, como muitos pensam, nos cuidar e nos valorizar é o verdadeiro significado do autoamor.

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